sábado, 5 de janeiro de 2019

A PARÁBOLA DO AMOR AO PRÓXIMO.


*”A PARÁBOLA DO AMOR AO PRÓXIMO.”
(Lucas 10.25-37)
Mensagem preparada para pregação na PIB Linhares, em 06/01/2019, domingo manhã.

Bom dia irmãos,

Vamos continuar meditando nas parábolas de Jesus. Na quinta-feira tivemos a abertura desta pequena série de mensagens sobre as parábolas, refletimos sobre o que é o Reino de Deus, e o preço de ser um discípulo de Jesus e cidadão do seu reino.

Nesta manhã como anunciado, vamos meditar em uma das parábolas mais conhecidas, pessoalmente uma das minhas favoritas, que a chamada parábola do “bom samaritano”.

Por gentileza, abra sua Bíblia no Evangelho Segundo Lucas, capítulo 10, versos 25 a 37:

“25. (...)” (Lucas 10.25-37).

Essa parábola tem como temática o amor ao próximo, por isso o tema da mensagem segue o tema da parábola e a designei o tema de hoje de:

A PARÁBOLA DO AMOR AO PRÓXIMO.

Vamos orar mais uma vez.

É uma história bem conhecida.

*Tudo começa quando Jesus é colocado à prova por um “certo doutor da lei” (verso 25 – provavelmente um Fariseu), que o pergunta: “Mestre, que devo fazer para ter a vida eterna?”.

Guarde esta pergunta na sua mente, ao final vamos voltar a ela.

Mas, aqui já há algo que deve ter parecido um absurdo para os ouvintes.

*O sujeito é um doutor da lei, ou seja, estudou com um rabi de uma escola conhecida, tem o reconhecimento desta escola rabínica, hoje ele teria um diploma superior em Teologia, ele atende pessoas que o procuram para tirar dúvidas sobre a Bíblia e ele vai perguntar para um pregador itinerante que na sua própria terra não teve credibilidade, como é que alguém pode ir para o Céu?

Nem os conhecidos de Jesus que o viram crescendo entendiam de onde vinha sua sabedoria e autoridade (Marcos 6.1-3):

*“1. Jesus saiu dali e foi para sua terra, e os discípulos o seguiram.
2. Chegando o sábado, começou a ensinar na sinagoga; ao ouvi-lo, muitos se maravilhavam, dizendo: De onde lhe vem essas coisas? Que sabedoria é que lhe foi dada? Como se fazem tais milagres por suas mãos?
*3. Este não é o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E suas irmãs não estão aqui entre nós? E escandalizavam-se por causa dele.” (Marcos 6.1-3).

Nem na sua própria terra as pessoas tinham conhecimento de onde vinha a sabedoria de Jesus, como um homem que até então exercia a função de carpinteiro (ou artífice) podia saber aquelas coisas?

Ele não tinha formação em teologia, não era de linhagem sacerdotal, não era de família de profetas, não era chefe de sinagoga, não era da Tribo de Levi.

Mas mesmo assim aquele que era um doutor da lei estava lhe perguntando como ir para o Céu!

Continuando a narrativa que precede a parábola do bom samaritano, Jesus devolve a pergunta ao doutor da lei (verso 26):

O que está escrito na lei? Como lês?” Em aramaico, a língua falada por Jesus no dia-a-dia, a palavra usada deve te sido “qara”, e pergunta ficaria assim: “Como recitas?”. Os judeus recitavam, e ainda recitam, as escrituras como rezas.

O Doutor da Lei então recitou uma combinação dos textos de Deuteronômio 6.5 e Levítico 19.18:

*“5. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma com todas as tuas forças.” (Deuteronômio 6.5).

“18. Não te vingarás nem guardarás ódio contra gente do teu povo; pelo contrário, amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.” (Levítico 19.18).

Sobre o amor a Deus não pairava qualquer dúvida. Deus era único e conhecido de todos os judeus.

Eles recitavam todos os dias, pela manhã e antes de dormir o Shemá Israel (“Ouve ó Israel”), que no começo era apenas o texto de Deuteronômio 6.4-9, depois passou a englobar também Deuteronômio 11.13-21, e Números 15.37-41. 

Mas sobre quem era “o próximo” que devia ser amado para que se pudesse ter acesso ao Céu, havia discussão entre os doutores da lei.

Havia uma ideia majoritária de que apenas os membros da comunidade judaica eram “o próximo”, incluindo o chamado “prosélito pleno” (prosélito de retidão ou prosélitos de justiça).

O prosélito pleno era uma pessoa nascida em outra nação que só não se tornavam judeus quanto à raça por que isso era impossível, mas se tornavam judeus quanto à religião, pois abraçavam o Judaísmo de forma plena. Eles recebiam a circuncisão; prometiam se submeter a toda Lei Mosaica; eram batizados e até traziam sacrifícios no Templo.

Você encontra essa figura do “prosélito pleno” no texto de Êxodo 12.48:

*“48. Quando, porém, algum estrangeiro estiver vivendo entre vós e quiser celebrar a Páscoa do Senhor, deverá circuncidar todos os homens da família; então poderá celebrá-la e será como o natural da terra. Mas nenhum incircunciso comerá dela.” (Êxodo 12.48).

E haviam os prosélitos que não eram considerados como “o próximo” de um judeu, que eram os “Prosélitos da entrada” (ou prosélitos da porta).

Esses prosélitos da porta eram pessoas que até chegavam a renunciar às suas práticas pagãs e se tornavam simpatizantes da religião judaica. Alguns até frequentavam a sinagoga. Porém, esses prosélitos não chegavam a se enquadrar dentro de todas as exigências da Lei, especialmente com relação à circuncisão, apesar de guardarem muitos dos mandamentos morais.

Mas havia muita discussão entre aos ramos do judaísmo sobre quem era o próximo que se devia amar: Muitos fariseus consideravam que os “não fariseus” (saduceus, essênios, zelotas, herodianos) não eram o seu próximo.

Os essênios (que eram os proprietários dos manuscritos de Cunrã), achavam que só essênios eram o seu próximo.

Não havia uma única forma de pensar, não havia concordância entre as seitas judaicas, sobre quem era o próximo.

Era muito difícil que esses grupos do judaísmo concordassem em alguma coisa sobre a interpretação da lei. Mas em uma coisa TODOS eles concordavam:

Um Samaritano nunca seria o seu próximo!

Jesus contou a história em um nível crescente de desafio e inquietação para seus ouvintes:

*Vinha descendo um homem de Jerusalém para Jericó. Uma viagem realmente de descida, Jerusalém fica em uma região mais elevada, uma viagem de cerca de 27 km, uma estrada perigosíssima.

O homem estava caído, espancado, e certamente morreria se não fosse socorrido!

Então: Lá vem o sacerdote!-Esse vai ajudar o homem ferido pelos marginais”. E o sacerdote passou! Lá vai o pastor da igreja. Passou de longe...

Lá vem o levita! -Esse não é tão especial quanto o sacerdote, mas é um homem de Deus, ele vai ajudar o homem assaltado”. E o levita passou! Lá vai o diácono, ou o Ministro de Música, ou o professor da EBD. Passou...

O público de Jesus com certeza esperava que a próxima figura fosse um judeu comum, um crente, na nossa linguagem, um membro da igreja batista...

Jesus então complica a situação e enfia um samaritano na parábola.

Eu já falei algumas vezes porque os judeus odiavam tanto os samaritanos. Os samaritanos eram judeus mestiços! Mestiço no sentido de que seus ancestrais, que eram judeus puro-sangue do Reino de Israel (o extinto Reino do Norte), foram misturados com povos de várias nações por meio do casamento, quando os Assírios dominaram o Reino do Norte no ano 721 a.C.

Samaritanos eram judeus mestiços na linhagem sanguínea e tinham uma religião mestiça, impura aos olhos dos judeus, porque eles adoram a Deus, mas a outros deuses pagãos também.

E para piorar ainda mais o ódio dos judeus, entre os anos 6 e 9 d.C., durante uma festa da Páscoa (uma das mais sagradas para os judeus) os samaritanos pregaram uma peça terrível nos judeus: no meio da noite jogaram na praça do Templo ossadas humanas, e ossos humanos tornavam o ambiente impuro.

Praça do Templo impura, devido às ossadas, foi uma confusão, porque ninguém queria ficar religiosamente impuro passando pela praça do Templo, mas tinha que ir ao Templo porque era Páscoa. Foi uma confusão tremenda e o ódio pelos samaritanos aumentou muito depois disso.

E poucos anos depois desse ato terrorista dos Samaritanos, Jesus continua a história: Lá vem o Samaritano!  

Jesus gostava de mexer com o que havia de mais profundo no coração das pessoas, para que elas refletissem sobre suas necessidades verdadeiras, sobre seus preconceitos, para enxergar a verdade que Ele queria mostrar.

Há meu filho, os judeus que ouviam Jesus devem ter pensado automaticamente: “Com certeza esse miserável desse samaritano além de não ajudar o homem machucado, ainda é capaz de cortar a garganta dele.”

*Contrariando todas as expectativas, o Samaritano para, trata as feridas, presta os primeiros socorros, usa seus bens para ajudar o homem machucado, paga hospedagem, alimentação e cuidados para ele na hospedaria.

Acho que a gente pode fazer uma pausa aqui para nossa primeira reflexão, que é muito importante, porque é o cerne da parábola, e por isso vamos ficar só com ela hoje. Uma pergunta:

*1) QUEM NÓS EXCLUÍMOS DO NOSSO CONCEITO DE “PRÓXIMO”? (v. 36).

*“36. Qual desses três te parece ter sido o próximo do que caiu na mão dos assaltantes?” (Lucas 10.36).

De quem eu sou o próximo? Quem eu excluo do meu conceito de próximo? Quem está fora da minha obrigação cristã com o próximo?

Os judeus e prosélitos plenos excluíam os não judeus.

Muitos fariseus excluíam os não fariseus. Os essênios excluíam os não essênios.

E, novamente: Quem nós excluímos do nosso conceito de próximo?

Essa é a para parábola de amor ao próximo, ela envolve o segundo mandamento que é de natureza semelhante ao primeiro (Mateus 22.36-39):

*“36. Mestre, qual é o maior mandamento na Lei?
37. Jesus lhe respondeu: Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento.
38. Este é o maior e o primeiro mandamento.
39. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mateus 22.36-39).

Nós pensamos muitas vezes, e de forma absolutamente equivocada, que a parábola do bom samaritano, como a chamamos, envolve apenas ação social (dar cesta básica, doar uma roupa usada, um remédio, dar uma esmola), quando, na verdade, essa parábola identifica “a expressão pública daqueles que vão para o céu).

A pergunta feita a Jesus foi (v. 25): “Mestre, que devo fazer para ter a vida eterna?”.

Nós temos tanto medo da teologia da salvação pelas obras, que nos furtamos muitas vezes, para nossa conveniência, de fazer boas obras ao nosso próximo.

Você já deve ter ouvido que atos de bondade, as chamadas “Obras” não salvam! Somos salvos pela graça, por meio da fé (Ef 2.8 – vimoso este texto na última quinta-feira).

Mas esquecemos de falar com a mesma convicção que os salvos fazem os atos de bondade, as chamadas “obras”.

São elas que testemunham publicamente sobre a nossa fé e salvação. São elas que mostram de forma concreta, tangível, que fomos salvos por Jesus Cristo.

Nosso Senhor Jesus disse que são essas “obras” que nos serão apresentadas no dia do julgamento final, como provas em um Tribunal, sobre como vivemos a nossa fé no Senhor (Mateus 25.31-46).

Abra a sua Bíblia. É um texto longo, mas necessário para compreendermos quem é o nosso próximo.

(Mateus 25.31-46). Ler na Bíblia.

*Os que vão para o céu: Saciaram a fome de alguém; saciaram a sede; abrigaram estrangeiros; vestiram e aqueceram pessoas com frio; visitaram doentes e presos!

*São aqueles que amaram a Deus em primeiro lugar, mas amaram também o próximo.

Pessoas que investiram seu tempo, seus recursos, suas vidas em ajudar pessoas, em serem o próximo de alguém!

Os que vão para o inferno, disse Jesus, não fizeram essas coisas.

Não podemos excluir ninguém no nosso conceito de próximo!

Não podemos excluir ninguém do nosso amor, dos nossos pensamentos e das nossas ações! Porque todos eles são o nosso próximo.

Uma outra reflexão, ainda sobre quem excluímos do nosso conceito de próximo, é que amar ao próximo envolve não só o dar, mas também o perdoar e o orar pelos que nos odeiam:

*43. Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo.
44. Eu porém vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem;
45. para que vos tornei filhos do vosso Pai que está no céu; porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons e faz chover sobre justos e injustos.
*46. Pois, se amardes quem vos ama, que recompensa tereis?
47. E, se cumprimentardes somente os vossos compatriotas, que fazeis de especial? Os gentios também não fazem o mesmo?
48. Sede, pois, perfeitos, assim como perfeito é o vosso Pai Celestial.” (Mateus 5.43-48).

*O nosso próximo também pode ser alguém que nos considera um inimigo (alguém a quem essa pessoa quer ver destruído).

Pode ser alguém que nos persegue (que prepara armadilhas, que faz fofoca com nossos nomes no ambiente de trabalho, ou no nosso convívio social).

Nós as temos excluído também do nosso conceito de próximo?

Jesus nos manda orarmos por essas pessoas, elas são nosso próximo também

Vamos ver um vídeo agora, para finalizar entendendo o valor das pessoas que Jesus chama de nosso próximo, e depois estaremos orando!



(Anderson Freire. O bom samaritano).

Esta parábola mostra como um discípulo de Jesus deve amar o próximo!


Nossa proposta como igreja para este ano é ser uma igreja relevante para Linhares!

Mas nós só vamos ser verdadeiramente relevantes para o povo da nossa cidade se primeiro nós os amarmos, então, e só então, eles serão o nosso próximo!

Vamos orar.

ORAÇÃO.

Linhares, 05 de janeiro de 2019.

Marcos José Milagre
Pastor auxiliar da PIB Linhares

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

O SALVADOR NASCEU. E ELE NASCEU EM UMA MANJEDOURA!



*“O SALVADOR NASCEU. E ELE NASCEU EM UMA MANJEDOURA!”
(Lucas 2.1-20)
Sermão preparado para a PIB Linhares, em 02/12/18, domingo, manhã.

Bom dia irmãos.

Estamos iniciando o mês em que celebramos o nascimento de Jesus. É tão especial pensar que Deus nos ama tanto que se fez homem, deixando o Céu para nascer na poeirenta Belém, no fim do mundo da Palestina!

Por isso vamos refletir nesta manhã sobre a vinda de Deus ao mundo como um recém-nascido, para ser o nosso Salvador e o que este nascimento deve representar nas nossas vidas.

E para tanto eu peço a todos que abram suas Bíblias no evangelho segundo Lucas, no capítulo 2º, a partir do verso 1º, e eu vou fazer a leitura até o verso 20:

“1.” (Lucas 2.1-20).

O SALVADOR NASCEU. E ELE NASCEU EM UMA MANJEDOURA!

Vamos orar mais uma vez.

Nesta manhã nós vamos meditar neste capítulo 2º do Evangelho de Lucas, e a primeira coisa que podemos aprender é que...

1) JESUS QUER ENTRAR NA NOSSA VIDA DO JEITO QUE ELA ESTÁ! (v. 6-7).

*“6. Enquanto estavam lá, chegou o tempo de ela dar à luz,
7. e ela teve o filho primogênito; envolveu-o em pano e o colocou em uma manjedoura, pois não havia lugar para ele na hospedaria.” (Lucas 2.6-7).

*Quando imaginamos o nascimento de Jesus não é mais ou menos esse quadro que imaginamos: um presépio!


Imaginamos um curral, talvez dentro de uma espécie de estrebaria, uma cabaninha, ou uma caverna usada como estrebaria.

Mas eu quero apresentar algumas colocações para nosso crescimento no conhecimento do relato bíblico.

Em primeiro lugar, devemos nos lembrar que José estava voltando para a sua aldeia de origem. No Oriente Médio a memória das pessoas sobre as suas origens e parentesco é muito importante, pode-se perder um pouco o contato, mas a história de família, o “sangue do meu sangue”, sempre vai ser muito importante!

José poderia ter aparecido em Belém e dito: “-Olá, eu sou José, filho de Eli, filho de Matate, o filho de Levi”, que a maioria das casas da aldeia na cidade  abriria as portas para ele.

Além disso, José era um “nobre”, ele era da família do rei Davi. A família de Davi era tão famosa em Belém que o povo local aparentemente chamava a cidade de “Cidade de Davi” (Lc 2.4).

Uma segunda coisa importante, toda cultura dá atenção especial a uma mulher grávida. Belém não era uma exceção!

Nossa compreensão é que José e Maria foram rejeitados em uma espécie de pensão ou pousada. José chegou, tocou aquela campainha, o funcionário veio, chegou a lista dos quartos, a lotação estava esgotada, e eles foram dispensados.

Mas vocês acham que toda a aldeia de Belém iria virar as costas para um descendente de Davi, na “Cidade de Davi”, com sua mulher grávida, prestes a dar à luz?

Isso seria uma vergonha inimaginável para todo o povoado!

Se você começou a perceber que tem algo complicado com a nossa visão de como a história ocorreu, você está certo.

Uma terceira questão: Maria tinha parentes em uma vila próxima. Poucos meses antes do nascimento de Jesus, Maria foi visitar sua prima Isabel, que morava em “uma cidade na região montanhosa de Judá” (Lucas 1.39), ora, Belém ficava no centro da Judeia, se não houvesse hospedagem para eles em Belém, bastaria viajar mais alguns quilômetros e se hospedar com Isabel e Zacarias (onde Maria poderia dar à luz na companhia da prima que já sabia da real natureza do bebê que Maria tinha no ventre).

Uma quarta observação, e eu encerro com esta, olhe o que diz o verso 6: “Enquanto estavam lá, chegou o tempo de ela dar à luz,”.

Nós imaginamos que José chegou com Maria em um jumentinho, no meio da noite, procurou a hospedaria, não tinha vaga e por causa da urgência, ela já sentindo as contrações da gravidez, aceitou a primeira oferta que foi feita de abrigo que era um estábulo!

Porém o verso 6 diz: “enquanto estavam lá, chegou o tempo de ela dar à luz”.

Então eles já estavam na cidade há algum tempo quando chegou a hora da concepção de Jesus. Não foi uma urgência. José teria tempo de procurar hospedagem em uma casa ou de ir a Isabel e Zacarias para se hospedar na casa deles em uma comunidade vizinha.
O que aconteceu então?

Precisamos conhecer um pouco a arquitetura dos vilarejos do Oriente Médio dos dias de Jesus.

*As casas simples das aldeias da Palestina em geral não tinham mais que dois cômodos. Um deles era exclusivamente para visitantes: Ou ficava em anexo ou ser um “quarto para profetas” na parte superior das casas, como na história de Elias (1 Reis 17.19).



O cômodo principal era o “cômodo da família”, onde toda a família cozinhava, comia, dormia, enfim, vivia!


*Esse espaço da família ficava cerca de um metro mais alto que o restante desse cômodo, a parte que ficava mais baixa era cercada com madeira pesada, e à noite os animais da família, como a vaca, o burro, algumas ovelhas, eram conduzidas para essa área mais baixa, dentro da casa.


*Na manhã seguinte a família colocava os animais para fora da casa e limpava esse estábulo.



Kenneth Bailey, autor de um livro sobre os costumes nos dias de Jesus[1] diz que viu com seus próprios olhos esse tipo de construção que existiu dos dias de Davi até mais ou menos 1950.

Esse tipo de casa pode ser encontrado em algumas narrativas bíblicas, eu separei uma no Antigo Testamento e outra no Novo Testamento:

*Em 1 Samuel 28, quando o rei Saul se hospedou na casa da vidente de Endor e se recusava a comer, a vidente pegou um “novilho cevado que tinha em sua casa” (1 Samuel 28.24):

“24. A mulher tinha em casa um bezerro de engorda e depressa o matou; pegou também farinha, amassou-a e assou pães sem fermento.” (1 Sm 28.24).

*Outro exemplo está no Novo Testamento, Mateus 5.14-15 (nosso texto de reflexão da última quinta-feira):

“14. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte.
15. nem os que acendem uma candeia a colocam debaixo de um cesto, mas no velador, e assim ilumina a todos que estão na casa.” (Mt 5.14-15).

Uma lamparina ilumina a casa inteira porque só tinha um cômodo.

Esse tipo de casa se encaixa perfeitamente na narrativa dos Evangelhos sobre o nascimento de Jesus.

*Dois homens que viveram na Palestina, um deles presbiteriano, William Thompson, por volta de 1.850 d.C. e um estudioso anglicano, E. F.F. Bishop, em 1.920 d.C., descreveram esse tipo de casa: Os animais na parte baixa, as “manjedouras” no começo da parte alta do espaço da família, e depois, o cômodo da família.

Mas, e porquê Lucas disse no verso 7 “que não havia lugar para eles na hospedaria”?

*Lucas usa a palavra grega “Katalúmati” que é traduzida para hospedaria, não era uma palavra própria para um lugar alugado para hospedagem, tanto é que na parábola do “Bom Samaritano”, Jesus usa a palavra “Pandokeíon” para designar o lugar onde o Samaritano deixou o homem ferido para ser cuidado (a hospedaria).

Assim, “katalúmati” significa simplesmente “um lugar para ficar”!

Para corroborar essa ideia, quando Jesus pede que seus discípulos preparem a páscoa, onde foi celebrada a primeira ceia do Senhor, a palavra usada é “kataluma” (Lucas 22.10-12):

*“10. Ele respondeu: Quando entrardes na cidade, um homem sairá ao vosso encontro, carregando um jarro de água; segui-o até a casa em que ele entrar.
11. E direi ao dono da casa: O Mestre manda perguntar-te: Onde fica o aposento (kataluma) em que comerei a refeição da Páscoa com meus discípulos?
*12. Então ele vos mostrará uma grande sala mobiliada; fazei ali os preparativos.” (Lc 22.10-12).

*Depois dessa extensão análise, e é extensa porque estamos acostumados com a imagem do presépio desde que nascemos, e apresentar uma imagem diferente requer maiores explicações, mas a história na narrativa de Lucas mostra que a família que recebeu José e Maria não ofereceu um curralzinho meia-boca para o Deus menino, essa família ofertou o que eles podiam e era o melhor que possuíam: o quarto da própria família foi usado para o nascimento de Jesus, porque o quarto de hóspedes (Kataluma) estava ocupado, provavelmente por outros hóspedes que foram para o recenseamento.



Deus não exigiu daquela família o quarto de hóspedes, ou a construção de um novo cômodo para si.

Deus não exigiu daquela família que eles deixassem sua casa para que Ele entrasse.

Deus, na pessoa de Jesus Cristo, foi acolhido por aquela família em seu meio, da forma em que estavam, porque este era o seu melhor, era o mais íntimo que eles podiam fazer.

Há famílias que se encontram apenas em dias especais do ano: Natal, aniversário de um patriarca ou matriarca idoso e por aí vai.

Nestas datas as casas são limpas, arrumadas, enfeitadas, e no Natal mais especialmente com luzes, enfeites, árvores etc., como se fosse para receber o aniversariante, Jesus Cristo.

Mas Deus não pretende ser um visitante de fim de ano, nem que você precise “arrumar” a sua casa antes de recebê-lo.

O melhor que eu e você podemos oferecer a Jesus neste Natal é que ele seja nosso hóspede o ano todo, naquilo que é o nosso melhor: A nossa família, a nossa intimidade, do jeito que ela estiver!

Porquê do jeito que ela estiver?
(...)
Porque é Jesus quem muda a nossa rotina!

Quem já teve bebê em casa sabe como um recém-nascido muda a rotina da casa inteira!

Jesus, e somente Jesus, o aniversariante que celebramos, é quem pode mudar a nossa rotina para melhor; pode mudar o casamento, para melhor; pode mudar os relacionamentos, sempre para melhor, nunca para pior!

Não há família que receba Jesus em sua intimidade que não seja grandemente abençoada pela sua presença!

Que as nossas famílias possam hospedar Jesus na intimidade do lar, do jeito que o lar estiver, porque o Senhor vai mudar o que Ele entender que deve ser mudado, sempre para o nosso benefício!

Mas uma segunda afirmação que podemos fazer é que...

*2) NINGUÉM É DESPREZADO POR JESUS. (v. 8-9).

*“8. Naquela mesma região, havia pastores que estavam no campo, à noite, tomando conta do rebanho.
9. E um anjo do Senhor apareceu diante deles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor; e ficaram com muito medo.” (Lucas 2.8-9).

Eu sempre gostei dessa parte da narrativa: os reis estavam nos palácios (inclusive o Imperador em Roma); nobres estavam em suas ricas e luxuosas casas; os sacerdotes estavam no Templo de Jerusalém (realizando as práticas religiosas prescritas pela Lei); mas os primeiros ouvintes da boa nova do nascimento de Jesus, notícia dada por um anjo foram alguns pastores no campo, na província da Judeia, nas cercanias de um povoadozinho chamado Belém!

*Nós romantizamos a figura do “Pastor”, principalmente porque Davi usa a figura do pastor no Salmo 23 para falar do cuidado de Deus. Davi havia sido pastor, ele sabia porque considerava a Deus o seu pastor.

Em João 10.11, o Senhor Jesus atribui a si mesmo a figura do Bom Pastor, que dá a vida para suas ovelhas!

Por isso nós não conseguimos compreender como os pastores eram vistos pela sociedade nos dias do nascimento de Jesus.

A literatura rabínica mostra que à época do nascimento de Jesus os pastores não eram vistos com confiança, havendo até mesmo um ditado popular que incluía a profissão de pastor entre as profissões que os judeus não deviam ensinar a seus filhos[2].

Era considerada uma profissão “desprezível” pelos judeus. Fora as passagens do Antigo Testamento, como o Salmo 23, entre outras, e nas palavras de Jesus, os escritos dos rabinos apontavam os pastores sempre desfavoravelmente, como desonestos (pastoreavam o rebanho em propriedade alheia), não guardavam os rituais de purificação que os fariseus tanto valorizavam, desconfiava-se que eles roubassem um ou outro animal.

Mas o nascimento do Salvador do Mundo foi anunciado a esta classe considerada desprezível pelos seus compatriotas, e foi anunciado por um anjo enviado por Deus!

Isto é muito importante neste período de Natal para entendermos como Deus olha para cada um de nós: Não existem pessoas desprezíveis aos olhos de Deus!

*Como diz o apóstolo Paulo (Gálatas 3.28):

“28. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gl 3.28).

Não há castas, ou classes sociais aos olhos de Deus.

As pessoas têm desenvolvido um gosto estranho pela cultura oriental. A cultura valoriza a separação eterna das pessoas em classes sociais, as castas.

Outras culturas orientais também valorizam muito a distinção social. O Ocidente também valoriza as distinções: econômica (ricos e pobres), famosos e anônimos etc.

Mas Deus nos olha com os mesmos olhos de amor, mesmo que nenhum de nós seja merecedor desse amor.

O Natal (o nascimento de Jesus), proclamado por um anjo a simples pastores, deve nos trazer a memória que nossa tarefa enquanto igreja é proclamar essa boa nova a todas as pessoas, ricos e pobres, cidadãos das cidades e da roça; proclamar o Evangelho da Salvação aos moradores de casas ricas, mas também a quem porventura more em um barraquinho de papelão.

Os pastores de Belém estavam no campo, cuidando do rebanho, não estavam no Templo de Jerusalém, ou na sinagoga local. O anjo foi até eles para anunciar-lhes que o Salvador havia chegado.

Talvez as pessoas que precisam ouvir a mensagem do Evangelho, aquelas que Deus quer que eu e você falemos que Jesus nasceu, não esteja neste templo, ou em qualquer outro templo cristão, mas esteja “cuidando das ovelhas”, na nossa vizinhança, na escola que frequentamos, nas fábricas, na periferia ou nos bairros nobres.

*Eles precisam de pessoas que se disponham a ir até eles. Jesus deixou o Céu e veio até nós. Deus enviou o anjo até os pastores. As perguntas que ficam para cada um de nós é:

A quem Deus quer me enviar?

Eu estou disposto a ir?

Deus não despreza ninguém, Ele ama a todos, e não quer que ninguém e perca.
Por isso cada um de nós precisa responder se vai ou se não vai anunciar:

-Jesus nasceu, eu o conheço e quero apresentá-lo a vocês!

E por fim, chegando ao final...

*3) NÓS ADORAMOS APENAS O MENINO DEUS (Mateus 2.11).

*“11. Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra.” (Mateus 2.11).

Encerramos na quinta-feira o mês da música, um mês em que refletimos muito sobre adoração, sobre louvor.

E este versículo mostra que os magos (provavelmente sacerdotes persas) viajaram uma grande distância para encontrar o “rei dos judeus”.

Antes de encontrarem Jesus, eles se encontraram com o rei Herodes (Mateus 2.7), mas eles não adoraram Herodes.

Eles foram até a casa em que José, Maria e Jesus estavam hospedados (Mateus 2.11), e prostrando-se adoraram o menino.

Eles viram a mãe com o menino, mas adoraram o menino.

Não quero polemizar, mas nós precisamos ser fieis à Bíblia.

Nós não adoramos a mãe. Ela tem o nosso respeito, certamente era a melhor mulher da sua época, mas o único que foi adorado foi “o menino”.

Nós também adoramos apenas “o menino”.
Os magos não foram os únicos a adorarem a pessoa certa.

Da mesma forma, os pastores viram a glória do Senhor e ouviram o anjo do Senhor, mas eles não adoraram o anjo, (Lucas 2, verso 20) eles “voltaram glorificando e louvaram a Deus por tudo que tinham visto e ouvido”.

*Quando você estive cercado de enfeites de Natal, luzes de Natal, ceias de natal, presentes de natal, shows de natal, não sei mais o que de Natal, lembre-se: o único que é digno de receber a nossa adoração, o nosso tempo, o nosso amor, a nossa dedicação; o único a quem dobramos os nossos joelhos é ao menino que nasceu naquela manjedoura, no pequeno povoado de Belém, MAS DIANTE DE QUEM TODO JOELHO UM DIA SE DOBRARÁ E TODA LÍNGUA CONFESSARÁ QUE SOMENTE ELE É O SENHOR!

*E assim nós começamos a refletir sobre o nascimento do Nosso Senhor Jesus neste mês de dezembro, que o Senhor nos abençoe! Amém!

Vamos orar.

Linhares, 1º de dezembro de 2018.

Pr. Marcos José Milagre


[1] BAILEY, Kenneth E. Jesus pela ótica do Oriente Médio. São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 31.
[2] DANIEL-ROPS, Daniel. A vida diária nos tempos de Jesus. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 263.