sexta-feira, 14 de maio de 2021

EU, CRISTÃO!

EU, CRISTÃO!

 

Há algum tempo planejo escrever uma declaração pessoal de fé, mas o tempo é preenchido por tantas atividades que a escrita fica sempre para o momento oportuno que não chega, confesso que prefiro ler a escrever, talvez porque há tantas pessoas mais capazes escrevendo, que ler seus livros, ensaios e artigos torna-se muito prazeroso.

Chega um momento, todavia, que é preciso externar uma posição pessoal sobre a cosmovisão que abraçamos e através da qual passamos a enxergar o mundo que nos cerca.

Nossos dias reclamam essa tomada de posição, especialmente pela convulsão cultural que temos presenciado no Brasil e em todo o mundo, onde antigas ideologias totalitárias, que pareciam sepultadas sob a ignomínia pós-Segunda Guerra, reaparecem sem pudor algum dos dois lados da Linha do Equador, até mesmo no nosso multicultural país.

Para tanto, basta comparar com olhar atento as características do que Umberto Eco chama de “Ur-Fascismo” ou “Fascismo Eterno”  na sua pequena obra de mesmo nome[1], e ler sistematicamente as postagens e declarações de muitos políticos brasileiros e seus “seguidores”, suas reações, pressupostos e princípios para enxergar isso. Está tudo diante dos nossos olhos, na tela do smartphones, para quem tem olhos para ver.

Tudo isso catalisado pela abundância dos meios de comunicação que a modernidade tecnológica oferece; hoje qualquer pessoa que tenha um celular e acesso à internet pode apresentar um programa audiovisual e expor seu pensamento; com isso, a centralidade da notícia, da informação, da formação de opinião deixou de ser propriedade de grupos de informação tradicionais como jornais, revistas etc. e ganhou as ruas, com todos os benefícios e riscos que isso oferece, em especial da ausência de responsabilidade com a integridade e veracidade das informações.

Na concepção do sociólogo Zygmunt Balman, vivemos em uma “modernidade líquida”[2], termo usado para definir o mundo globalizado, marcado pela “liquidez e volatilidade”. No mundo “concreto” a religião e o nacionalismo davam um sentido para a comunidade e um sentimento de pertencimento. Assim, o ser humano construía sua identidade a partir dessas referências.

Todavia, uma mudança nos anos 60 e 70 promoveram o enfraquecimento das “instituições” que serviam como supedâneo para o indivíduo construir sua identidade como as crenças religiosas, a família e a escola.

De Bauman, ainda, pode ser destacado o conceito do “pêndulo” que oscila na sociedade humana, entre segurança e liberdade, sendo que na visão do referido sociólogo, aparentemente este pêndulo esteja voltando da “liberdade”, o sentimento reinante no pós-Segunda Guerra, para a “segurança”, em especial pelo medo genérico (sem uma causa identificável, chamado de “medo líquido” por Balman) da inconstância fluída da modernidade líquida (tardia ou pós-modernidade).

Na Europa, notícias recentes do manifesto de militares franceses sobre uma iminente “guerra civil sangrenta”[3], movida pelos sentimentos anti-imigrantista presente na França, em especial contra os imigrantes islâmicos, foi apoiada por Marine Le Pen, reconhecida representante da extrema-direita francesa. O retorno do pêndulo rejeita a liberdade da convivência pacífica entre os povos, o globalismo e o pluralismo;  ressaltando o nacionalismo e a defesa da predominância religiosa da maioria.

No caso do Brasil, o retorno do pêndulo tem ressuscitado velhos medos do século XX, tais como o “comunismo”[4]. Mas o pêndulo ainda não retornou da liberdade para a segurança, há intensa propaganda de matriz libertária individual em foco, tais como os direitos da comunidade LGBTQ+; movimento feminista, inclusive pró-aborto; movimentos sociais pela distribuição de terras, moradias; direitos humanos etc.

Todos os grupos ideológicos querem guiar o movimento do pêndulo para a liberdade ou segurança, o choque é inevitável e, na era da tecnologia, acontece brutalmente nas redes sociais. O ódio jorra no YouTube, Facebook, Instagram, WhatsApp, Twitter etc. O debate amistoso, cordial e construtivo de ideias não tem espaço nestes ambientes virtuais.

Potencializa este ódio os expedientes utilizados no que podemos chamar de “guerra cultural”. O uso de “robôs”, que substituem as pessoas reais; e as Fake News, que apresentam mentiras como se fossem verdades, ou a verdade mesclada com a mentira (meias verdades), que dá no mesmo.

Isto aliado ao aspecto empresarial que as redes sociais empregam, valendo-se dos dados de cada usuário para obter lucro com o engajamento[5] por meio de algoritmos que aprisionam a pessoa em uma bolha de informações para mantê-la conectada por mais tempo, exposta aos anúncios publicitários que geram o lucro. Um detalhe é que “existem apenas duas indústrias que chamam seus clientes de usuários: a de drogas e a de software[6], isso já deveria nos fazer refletir sobre o uso das redes sociais.

Tal bolha apenas potencializa o pensamento do próprio usuário; aquele que tem, por exemplo, um viés de esquerda ou direita, receberá as notícias, informações, produtos etc. que mais se adequam ao seu próprio pensamento, privando-o do contraditório e do direito fundamental às múltiplas fontes de informação.

Se você, como eu e mais 60% em média dos usuários[7], não sabia da existência ou da extensão e risco dos algoritmos, recomendo a leitura do Livro “Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais”, de Jaron Lanier, ou assista ao documentário “O dilema das redes”, na Netflix. Para uma reflexão sobre a necessidade de fontes seguras e múltiplas de informação, recomendo o livro do jornalista americano Franklin Foer, “O mundo que não pensa”.

O fato é que somos alimentados nas redes sociais pelo que já está no nosso coração, e é identificado pelos algoritmos que as redes sociais usam para selecionar dentre a infinidade de informações aquilo que vai nos interessar e nos manter conectados, enquanto nosso tempo e preferências são comercializados para empresas que postam seus anúncios.

Sobre essa potencialização do nosso próprio “eu” pelas redes sociais, em uma referência Geek, podemos parafrasear as palavras do personagem Dr. Erskine a Steven Rogers no filme “Capitão América: O primeiro vingador”, e dizer que com o uso dos algoritmos nas redes sociais: “bom se torna ótimo, o mau se torna pior”.

Este é basicamente oceano cultural em que nos encontramos submersos no Ocidente, com especial destaque no Brasil. Nós, Cristãos Evangélicos, ou Protestantes, onde me encontro (pois pela Graça de Deus fui chamado ao Ministério Pastoral Batista), não estamos alheios a esta cultura, na verdade somos expostos a ela por mais tempo diário do que somos expostos ao valores do Evangelho de Jesus Cristo (considerando o tempo diário empregado em leitura, oração, cultos etc., o tempo restante é muito maior, e pode ser que a exposição cultural a ele, o convívio com outros que não partilham da nossa fé na escola, trabalho, empresa e faculdade sejam quantitativamente maior).

Prova desta exposição são os perfis nas redes sociais dos Cristãos! Olhe sua própria página, veja quantas postagens são mensagens bíblicas (textos da Bíblica, pregações etc.) e quantas são relativas a política, família, filmes, músicas, comida etc.? As suas postagens dizem mais sobre como, ou onde, está o seu coração que a mera declaração de fé! “Pois onde estiver o seu tesouro, ali também estará o seu coração” (Mt 6.21).

Pensamos neste texto apenas em matéria de dinheiro, mas você acha que o tempo e a energia que você gasta nas suas redes sociais não tem valor algum? Não determinam também o que é o seu “tesouro”, e junto com ele, onde também estará o seu “coração”?

Por isso, muitos cristãos são movidos por valores da cultura geral sem filtrá-los pelas lentes ou peneiras que o Evangelho possui. Muitos são os que, embalados pela ideia geral de liberdade, pátria, Deus, família, conservadorismo, liberalismo, marxismo, esquerdismo, ou direitismo etc.; fazem das suas postagens, mesmo sem perceber, a sua declaração pessoal de fé!

A verdade é que o Evangelho de Jesus Cristo é completamente diferente de qualquer ideologia humana, não há como caracterizá-lo na direita, esquerda ou centro político. Não é conservador, nem liberal. Não é comunista nem capitalista. É algo totalmente diferente, por isso, os cristãos que além de meramente se identificarem com o nome de Cristo, verdadeiramente procuram viver o Evangelho, também não se enquadram nestas ideologias, o que traz muita confusão às pessoas que tentam nos rotular quando nos manifestamos.

Se disser que sou contra o aborto, pois Deus é o Autor da Vida, e por isso ninguém tem o direito de cerceá-la, sou cristão conservador (fundamentalista, etc.)! Por outro lado, se disser que sou contra a pena de morte, pelo mesmo motivo bíblico, sou cristão liberal (marxista, comunista, esquerdista, etc.)!

Se reproduzo o pensamento bíblico que a prática homossexual é pecado, devendo ser abandonada, sou cristão conservador! Se afirmou que homossexuais são amados por Deus e devem ser respeitados e amados pela igreja, sou cristão progressista e liberal!

Se digo que o armamentismo, tão apregoado atualmente no Brasil, é contrário ao ensino do Evangelho, sou esquerdista! Da mesma forma quando digo que os injustiçados socialmente devem ter na igreja e nos cristãos os seus defensores, ou que os direitos humanos são em primeiro lugar direitos concedidos por Deus, e devem ser respeitados!

Todavia, se digo que aquele que faz uso da violência contra outros cidadãos ou órgãos públicos (Ex.: polícia) e vem a sofrer as consequências dos seus atos, fez uma escolha pessoal e é responsável por ela (a despeito da tristeza com que constato o resultado do mau uso do livre-arbítrio) sou conservador fundamentalista!

Na verdade, quando faço cada uma dessas afirmações, o faço com o mesmo fundamento: A Bíblia! Tendo como cerne o Evangelho de Jesus Cristo! Amor e Misericórdia de Deus em pleno equilíbrio com Justiça e Santidade: Graça!

Mas não há como encaixar todo este conjunto de afirmações em nenhuma ideologia humana. Amar os inimigos, orar pelos que nos perseguem, abençoar e não amaldiçoar, não é pauta da direita nem da esquerda, e certamente não cabe nas redes sociais que transpiram ódio à diferença de pensamento, só o Evangelho comporta tudo isso!

Assim, se dizemos que somos cristãos, precisamos ser diferentes da esquerda, da direita (e também do centrão)! Logo, sobre as humanas ideologias de direita e esquerda, conservadoras ou progressistas, podemos afirmar o mesmo que o personagem “Bárbavore” no clássico de J.R. Tolkin “O Senhor dos Anéis (As duas Torres)”: “Não sei nada sobre lados. Vou pelo meu próprio caminho; mas o vosso caminho pode acompanhar o meu por uns tempos[8].

“O Caminho” que seguimos é o único caminho que toda pessoa deve trilhar para voltar a Deus: Jesus Cristo” Ele disse que Ele é “o” caminho (João 14.6)!

O caminho de conservadores ou progressistas; seja a matriz ideológica que qualquer pessoa defenda, pode por vezes parear com o nosso caminho Cristão, seja na defesa da família ou dos direitos humanos; seja na denúncia às injustiças sociais ou na defesa da liberdade de crença (o que é um princípio Batista[9]), mas nunca será o nosso Caminho!

Não devemos abandonar nosso Caminho perfeito para trilhar caminhos ideológicos humanos, quaisquer que sejam as suas preferencias; nem permitir que nosso próprio coração seja enganado e levado a seguir a cultura geral que reverbera ódio e comportamento contrário aos ensinos bíblicos (em especial nas redes sociais, que potencializam o que já está no coração do usuário).

Assim, a única declaração de fé que é necessária, indispensável ao cristão, é apenas uma; é o mesmo Caminho, é Jesus Cristo manifesto em seu Evangelho, que é o Poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16)!

Esse sou eu, cristão, somente cristão, muito prazer!

Pr. Marcos Milagre



[1] ECO. Umberto. Fascismo Eterno. Rio de Janeiro: Record, 2020.

[2] BAUMAN. Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

[5] Expressão que significa a quantidade de tempo que o usuário passa na rede social.

[6] Edward Tufte, Professor da Universidade de Yale, citado no documentário “O Dilema das Redes”, disponível na Netflix.

[7] FOER, Franklin. O mundo que não pensa. Rio de Janeiro: LeYa, 2018, p. 73. O autor se refere aos usuários do Facebook quando traz este percentual.

[8] TOLKIEN. J.R.R. As duas torres: Segunda parte de O Senhor dos Anéis. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2019, p. 693.

[9] www.convencaobatista.com.br, acessado em 14/05/2021.

domingo, 28 de março de 2021

POR QUE PODEMOS CONFIAR EM JESUS COMO NOSSO PASTOR?

 

*“POR QUE PODEMOS CONFIAR EM JESUS COMO NOSSO PASTOR?”

(Salmo 23)

Sermão preparado para a PIB Linhares em 28/03/2021, domingo, noite.

 

Boa noite irmãos e amigos que estão conosco presencialmente ou online.

 

Neste ano a Primeira Igreja Batista de Linhares adotou como tema geral a seguinte questão: “Que darei ao Senhor até que Ele venha?”.

 

Nesta noite eu quero pensar junto com você que precisamos dar “confiança”. Tempos difíceis como estes que temos vivido requerem muito mais confiança depositada na pessoa certa.

 

Por isso eu quero meditar com vocês nesta noite no Salmo 23, e, ao final dessa reflexão, chegarmos a uma resposta à pergunta que é também o tema da mensagem: “Por que podemos confiar em Jesus como nosso Pastor?”.

 

Eu sei que o Salmo 23 é conhecido pela maioria que me ouve agora, muitos podem recitá-lo de memória, mas como vamos precisar contextualizar a linguagem poética que o rei Davi usa no Salmo, eu quero pedir a sua gentileza em abrir sua Bíblia no Salmo 23 e me acompanhar na sua leitura:

 

“1. (...)” (Salmo 23).

 

Por que podemos confiar em Jesus como nosso Pastor?

 

Vamos orar mais uma vez.

 

Eu sei que os irmãos que têm um tempo maior de conversão têm ouvido mensagens abençoadoras neste Salmo 23, e que talvez pareça que não há mais o que ser dito, mas eu creio em primeiro lugar, que o Espírito Santo sempre renova a mensagem do Evangelho no nosso coração, e também, em segundo lugar, creio que ouvir a mesma verdade mais de uma vez também possa ser de grande proveito para também sedimentar essa verdade no nosso coração, como um soprar de vento que reacende aquelas brasas que estão se apagando.

 

Antes de apresentar os argumentos de por que eu acredito que eu posso confiar e descansar em Jesus como meu pastor, eu preciso mostrar duas coisas a você, a primeira delas é porque eu digo que Jesus é o Pastor retratado no Salmo 23.

 

*Davi usa o nome de Deus quando diz que “O Senhor é meu pastor...” (YHWH). A primeira pessoa a se referir a Deus como seu pastor foi Israel (Jacó) quando foi abençoar os filhos de José, Efrain e Manassés (Gn 48.15) disse: “O Deus em cuja presença andaram os meus pais Abraão e Isaque, o Deus que tem sido meu pastor durante toda a minha vida até este dia”.

 

*A figura do messias, o Cristo, como Pastor do povo de Deus é usado pelo Profeta Ezequiel, Capítulo 34.11-24. Deus se apresenta como o Pastor que cuidará das suas ovelhas, alimentará e protegerá, e que enviará o “Pastor” da descendência de Davi (Ez 34.23):

 

“23. E sobre elas levantarei um só pastor, o meu servo Davi, que cuidará delas e lhes servirá de pastor.” (Ezequiel 34.23).

 

*Jesus se apresenta como o Pastor prometido por Deus (João 10.11):

 

“11. Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a vida pelas ovelhas.” (João 10.11).

 

Por isso, não temos dúvida alguma que Jesus é o Pastor de quem Davi canta no Salmo 23. A Bíblia é muito clara sobre isso.

 

Mas segunda coisa, não fique tão clara, e eu preciso falar sobre isso com você, é que nós precisamos trazer a mensagem poética do Salmo 23 para a nossa realidade, isso porque os Salmos são letras de músicas, e como tal, eles usam do recurso da liberdade poética para representar algumas verdades, a mensagem por traz das figuras que são ali empregadas podem não impregnar o nosso coração (as fontes da nossa vida, como temos aprendido na jornada de oração às quintas-feiras), podem não atingir a nossa mente de uma forma compreensível e que nos ajude a colocar em prática aquilo que lá está sendo tratado.

 

Do que o Salmo 23 fala nos versículos 2 a 6?

 

*Veja a tabela que eu preparei para nos ajudar a visualizar isso:

 

Verso 2

“Pastos verdejantes” e “águas tranquilas”

Verso 3

“Renovo de forças” e “veredas da justiça”

Verso 4

“não temer a caminhada pelo vale escuro” e “vara e cajado que consolam”

Verso 5

“mesa diante dos inimigos”, “unção com óleo” e “cálice transbordante”

Verso 6

“bondade e misericórdia contínuas” e “habitação permanente na casa do Senhor”

 

Eu sei que você é inteligente, Deus nos criou com muita inteligência, nós conseguimos visualizar essas coisas e sentimentos que Davi diz que o Pastor lhe daria, mas o que isso quer dizer? O que está por baixo, ou em uma camada um pouco mais profunda da verdade?

 

Não é a superfície da água, eu quero te levar agora ao fundo da piscina!

 

*Uma dica, João 10.10, Jesus falando:

 

“10. O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com plenitude.” (João 10.10).

 

O que está por trás da poesia de Davi é que Jesus quer suprir todas as suas necessidades, não apenas aquilo que eu quero (ênfase no “eu”), mas tudo aquilo que Ele sabe que eu preciso.

 

*Vamos voltar à nossa tabela e acrescentar mais uma coluna à direita:

 

Verso 2

“Pastos verdejantes” e “águas tranquilas”

Sustento

Provisão

Verso 3

“Renovo de forças” e “veredas da justiça”

Encorajamento

Esperança

Verso 4

“não temer a caminhada pelo vale escuro” e “vara e cajado que consolam”

Proteção

Segurança

Livramento

Verso 5

“mesa diante dos inimigos”, “unção com óleo” e “cálice transbordante”

Honra

Sucesso

Reconhecimento

Verso 6

“bondade e misericórdia (hesed: amor fiel e constante) contínuas” e “habitação permanente na casa do Senhor”

Relacionamento

Companhia

(continuamente – tanto humana, quanto de Deus)

 

Você pode acrescentar outras percepções ao significado destas figuras, eu usei apenas o básico.

 

*Você percebe que Davi está dizendo que confiaria no Pastor que então lhe supriria suas necessidades: Materiais, emocionais, relacionais e espirituais?

 

Nadando um pouco mais para o fundo, você consegue perceber que a música composta pelo Rei Davi chamada “Salmo 23”, diz que o “Pastor” é aquele que pode dar uma vida plena” ou “vida abundanteàs suas ovelhas, como dito por Jesus no texto de João 10.10?

 

Tendo compreendido estas duas coisas: (1) Quem é o pastor, e (2) o que Ele dá para suas ovelhas; eu quero dizer a você porque você pode e deve confiar em Jesus como o Pastor de que Davi fala.

 

O argumento que eu quero te apresentar nesta noite, não para te convencer (porque é o Espírito Santo quem faz isso), mas para te algo para pensar; é o seguinte:

       

*1) SATISFAÇÃO NÃO É O MESMO QUE TER TUDO, SÓ JESUS COMPLETA O TANQUE DO SEU CORAÇÃO (v. 1).

 

*“1. O Senhor é o meu pastor; nada me faltará.” (Salmo 23.1).

 

Eu quero entender bem do que Davi está falando aqui, para que eu possa aplicar ao coração e ajudar você a aplicar isso ao seu coração.

 

Nós vimos do que Davi elenca uma série de coisas, situações, sentimentos, que o Pastor que ele confia lhe daria, e ele diz isso antes de enumerar as coisas.

 

Ele não diz: O meu pastor (Jesus) me dará suprimento material, casa, carro, trabalho, empresa; segurança, esperança; reconhecimento das outras pessoas, valorização, honra, sucesso nos meus projetos; relacionamentos duradouros e seguros E POR ISSO nada me faltará!

 

Ele diz o inverso: NADA ME FALTARÁ e o meu pastor me dá.

 

*Olhando o texto hebraico (a língua em que foi escrito o Salmo 23) fica mais fácil compreender isso. A expressão “nada me faltará” é “Lo ehsar

 

*Lo” no hebraico é uma partícula de negação, algo como: “Não, nunca, nada”! Por exemplo, o nome que Deus mandou o profeta Oseias colocar em dois dos filhos que ele teve com sua esposa começavam com essa partícula de negação (Oséias 1.6 e 9):

 

*Lo-Ruama (Não Amada) e Lo-Ami (Não meu Povo).

 

*Mas é a segunda palavra que chama mais atenção: “ehsar”, que nossas Bíblias traduzem para “me faltará”.

 

A origem desta palavra está em outra “hasêr”, que encontramos em uma passagem no 1º Livro dos Reis, Capítulo 11.21-22, quando o Faraó pergunta ao seu concunhado Hadade (o edomita, adversário de Davi e depois de Salomão), porque ele queria voltar para sua terra:

 

*“21. Quando Hadade ouviu no Egito que Davi descansara com seus pais, e que Joabe, comandante do exército, havia morrido, disse ao Faraó: Deixa-me voltar à minha terra.

22. Mas o Faraó perguntou-lhe: Que te falta (hasêr) em minha companhia para que queiras voltar para tua terra? Ele respondeu: Não falta nada (Lo); porém, peço que me deixes ir.” (1 Reis 11.21-22).

 

O Faraó diz: - Hasêr (do que você sente falta?). Hadade responde: - Lo (Nada).

 

Por isso a tradução mais literal possível do final do verso 1º do Salmo 23 “nada me faltará” é na verdade “não vou querer” ou “não vou sentir falta”.

 

*A afirmação de Davi foi: “O Senhor é meu pastor, por isso não sentirei falta de nada”!

 

*Isso muda completamente o referencial, porque o foco não está nas coisas, sob esse ponto de vista, o foco está no Pastor que abastece o coração da ovelha de satisfação, porque ela confia no seu pastor (Jesus).

 

Porque se o foco, a ideia de “satisfação” estiver nas coisas, sentimentos, relacionamentos, o quanto disso é suficiente para satisfazer o seu coração?

 

-Qual o tamanho da sua casa ou do seu apartamento vão fazer você feliz?

 

-Quanto dinheiro na sua conta é necessário para que você tenha uma noite de sono tranquilo?

 

-Quanto sucesso, reconhecimento, fama, curtidas em postagens (como as redes sociais estão tão em alta) é necessário para alguém ficar com o coração alegre?

 

-Quantas pessoas, ou qual pessoa, é necessário para que você tenha um referencial de relacionamento que deixe você abastecido de amor, afeto, alegria?

 

*Se olharmos apenas para essas coisas e sentimentos descritos nos versos 2 a 6 do Salmo 23, qual é o limite entre a satisfação e a insatisfação?

 

Onde você cruza essa linha, entre sentir que “não falta” ou que “está faltando”?

 

Você percebe que isso é subjetivo? Cada pessoa tem um limite, uma linha.

 

Você conhece pessoas que tem mais bens, que ganham mais dinheiro que você e nunca estão satisfeitas? Ou conhece pessoas que tem bem menos que você e são o retrato da alegria e satisfação e você se pergunta, como essa pessoa pode ser feliz com tão pouco?

 

Não estou falando que você não deva sonhar com coisas melhores, não é nada disso, mas se a sua alegria ou a sua infelicidade é ditada por ter ou não ter, ou por não ter o suficiente, então o seu referencial são essas coisas que você deseja.

 

Porque a questão é que você pode te um “caminhão” dessas coisas (bens e sentimentos) e não se sentir satisfeito, porque, biblicamente falando, satisfação não está ligada necessariamente ao “quanto eu tenho”, mas ao “quanto eu preciso ou desejo”.

 

Porque cada uma dessas coisas relacionadas nos versículos 2 a 6 do Salmo 23 podem ser tiradas de você!

 

*Um neuropsiquiatra judeu-austríaco chamado Viktor Frankl fundou a chamada “terceira escola vienense de psicoterapia”, a “Logoterapia e Análise Existencial”. Ele fundamentou sua terapia na sua experiência pessoal em quatro campos de concentração nazistas por onde passou, essa experiência e observações estão registradas no Livro “Em busca de sentido” (eu recomendo a leitura)!

 

Frankl perdeu a esposa grávida, os pais e um irmão nos campos de concentração nazistas. É alguém que entende de perdas, muito além das perdas puramente materiais.

 

Ele afirma que observou ao longo do tempo que os prisioneiros que mantinham uma vida espiritual (cânticos, orações, reuniões de adoração) tinham mais chances de sobreviver ao horror dos campos de concentração do que aqueles que não tinham nenhuma vida espiritual.

 

Isso porque o sentido da vida dos prisioneiros que cultivavam um relacionamento com Deus estava além das circunstâncias do campo de concentração, estava além das coisas, estava no relacionamento deles com Deus!

 

Mesmo faltando tudo, Deus não lhes faltava, isso deu sentido à vida deles e permitiu que eles passassem pela dor, pelo medo, pelas perdas, e saíssem mais fortes do outro lado.

 

Um bom exemplo bíblico disso é o do apóstolo Paulo! Paulo tinha a sua satisfação, o seu referencial, no Pastor, não naquilo que o Pastor podia lhe dar (Filipenses 4.10-13):

 

*“10. Alegro-me muito no Senhor por terdes finalmente renovado o vosso cuidado para comigo, do qual na verdade estáveis lembrados, mas vos faltava oportunidade.

11. Não digo isso por causa de alguma necessidade, pois já aprendi a estar satisfeito em todas as circunstâncias em que me encontre.

*12. Sei passar necessidade e sei também ter muito; tenho experiência diante de qualquer circunstância e em todas as coisas tanto na fartura como na fome; tendo muito ou enfrentando escassez.

13. Posso todas as coisas naquele que me fortalece.” (Filipenses 4.10-13).

 

Paulo nos ensina coisas muito importantes aqui: Ele não sentia necessidade de nada; ele aprendeu a estar satisfeito independentemente das circunstâncias (muito ou pouco); e ele só aprendeu isso porque depositou sua confiança “NAQUELE” que o fortalece.

 

Todos nós corremos o risco de depositar nossa confiança em ídolos que o nosso coração teima em entronizar. Você sabe o que é um ídolo?

 

Vou usar um conceito que não é meu, eu retirei de um livro chamado “dEuses Falsos”, do Pastor Timothy Keller[1]:

 

*O que é o ídolo: Qualquer coisa mais importante que Deu para você, que domine o seu coração e sua imaginação mais do que Deus. Qualquer coisa que você busque a fim de receber o que só Deus pode dar.

Qualquer coisa que seja tão central e essencial para sua vida é um deus falso, e, caso você o perca, sua vida dificilmente parecerá digna de ser vivida. *(...) Pode ser família e filhos, ou carreira profissional e enriquecimento, ou conquistas e aplausos da crítica, ou manter ‘as aparências’ e a posição social. Pode ser um relacionamento romântico, a aprovação do colegas, competência e habilidade, circunstâncias seguras e confortáveis, sua beleza ou seu cérebro, uma grande causa política ou social, sua moralidade e virtude, ou mesmo o sucesso no ministério cristão. *(...) é qualquer coisa que você observe e diga, no fundo do coração: ‘Se tiver isso, então sentirei que minha vida faz sentido, então saberei que tenho valor, então me sentirei importante e seguro.”

 

A idolatria é uma questão de referencial! A questão é descobrir:

 

*-Qual é o meu referencial?

 

No caso do Apóstolo Paulo, não era “aquilo” que Jesus dava a Paulo que o “fortalecia”, mas a pessoa do próprio Jesus, em quem ele confiou para ser o seu pastor!

 

*O próprio Jesus, no momento mais difícil na cruz, depositou sua confiança no Pai (Lucas 23.46):

 

“46. Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, dizendo isso, expirou.” (Lucas 23.46).

 

O último inimigo que seria vencido, a morte (1 Cor 15.26, Rm 8.38-39) parecia triunfar naquela hora, ela estava para levar a vida do Deus que se fez homem, o criador da vida estava morrendo, Ele não escolheu depositar sua confiança em Castelos, riquezas, nos seus seguidores, Ele depositou sua confiança no Supremo Pastor, o Pai!

 

*Nós sempre vamos depositar nossa confiança em alguém ou em algo, Paulo confiou em Jesus, Jesus confiou no Pai!

 

No “que”; ou em “quem”; ou “onde”, você está depositando a sua confiança?

 

Por isso, somente, preste bem atenção, somente se a confiança do seu coração estiver em Jesus (o bom pastor) é que você vai ter uma vida plena, e a sua vida vai ser plena porque o seu coração vai estar abastecido de confiança em Jesus, independentemente da quantidade ou mesmo da existência de outras coisas ou pessoas na sua vida!

 

E isso vai acontecer porque o seu referencial mudará daquilo que é efêmero, passageiro; para Aquele que é eterno, imutável, infinito, Todo-Poderoso e Todo-amoroso, Jesus, o bom pastor!

 

Você pode confiar em Jesus como seu Pastor porque Ele entregou a vida por você!

 

Hoje pela manhã o “Grupo Douloi” cantou uma música que tinha a seguinte frase: “Maior amor não há que a vida doar”.

 

*Dar a vida por quem amamos é uma das verdades do Evangelho, que Jesus disse da seguinte forma (João 15.13):

 

“13. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a própria vida pelos seus amigos.” (João 15.13).

 

O Bom Pastor, Jesus Cristo, assegura vida abundante para suas ovelhas; e Ele garante isso porque Ele abriu mão de muitas coisas para que isso fosse possível!

 

Quando o rei Davi diz que “nada faltará” às ovelhas do Bom Pastor, é porque TUDO faltou para o Pastor.

 

Não faltará a mim e a você, porque faltou para Ele:

 

*Verso

     2

Não faltará: “Pastos verdejantes” e “águas tranquilas”

Sustento

Provisão

“Jesus lhe respondeu: As raposas têm tocas, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do homem não tem onde descansar a cabeça.” (Mateus 8.20)

 

*Verso        

     3

Não faltará: “Renovo para as forças” e “veredas da justiça”

Encorajamento

Esperança

“E disse-lhes: A minha alma está tão triste que estou a ponto de morrer; ficai aqui e vigiai.” (Marcos 14.34)

 

*Verso

    4

Não faltará: “segurança mesmo na caminhada pelo vale da sombra da morte” e “vara e cajado que consolam”

Proteção

Segurança

Livramento

“E à hora nona, Jesus exclamou em alta voz: Eloí, Eloí, lamá sabactani?, que traduzido é: Deus meu! Deus meu! Por que me desamparaste?” (Marcos 15.34).

 

*Verso

    5

Não faltará: “mesa diante dos inimigos”, “unção da cabeça com óleo” e “cálice transbordante”

Honra

Sucesso

Reconhecimento

E o povo estava ali, olhando. E as autoridades o ridicularizavam, dizendo: Salvou os outros, então salve a si mesmo, se é o Cristo, o escolhido de Deus. Os soldados também zombavam, e, aproximando-se, ofereciam-lhe vinagre e diziam: Se tu és o rei dos judeus, salva a ti mesmo. E esta inscrição estava acima dele: ESTE É O REI DOS JUDEUS. Então um dos criminosos crucificados blasfemava dele, dizendo: Tu não és o Cristo? Salva a ti mesmo e a nós.” (Lucas 23.35-39).

 

*Verso

    6

Não faltará: “bondade e misericórdia (hesed: amor fiel e constante) contínuas” e “habitação permanente na casa do Senhor”

Relacionamento

Companhia

(continuamente – tanto humana, quanto de Deus)

“Mas tudo isso aconteceu para que se cumprisse as Escrituras dos profetas. Então todos os discípulos o deixaram e fugiram.” (Mateus 26.56).

“E à hora nona, Jesus exclamou em alta voz: Eloí, Eloí, lamá sabactani?, que traduzido é: Deus meu! Deus meu! Por que me desamparaste?” (Marcos 15.34).

 

*Jesus abriu mão de tudo, para que eu e você pudéssemos ter tudo que importa, que é um relacionamento de confiança baseado apenas na pessoa Dele (Filipenses 2.5-8).

 

*Confie em Jesus Cristo o suficiente para entregar sua vida a Ele, porque só Jesus é o Bom Pastor; só Ele deu a vida pelas suas ovelhas; Ele é o único que nunca vai te decepcionar, nem faltar, nem falhar!

 

Confie em Jesus Cristo e viva sua vida alicerçada nesta confiança, o Bom Pastor cuida das suas ovelhas, seja uma ovelha de Jesus!

 

Só aí você vai poder dizer: “O Senhor é o meu Pastor e por isso não sinto falta de mais nada!”

 

Porque Jesus é suficiente! Por isso eu posso confiar em Jesus!

 

Por isso eu convido você a entregar verdadeiramente sua vida a Ele!

 

Fechem seus olhos, vamos orar!

 

Linhares, 27 de março de 2021.

 

Pr. Marcos José Milagre

PIB Linhares



[1] KELLER, Timothy. dEuses falsos: as promessas vazias do dinheiro, sexo e poder, e a única esperança que realmente importa. São Paulo: Vida Nova, 2018, pp. 20/21.